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Brasil, China e BRICS chegam a Antália com agendas próprias e atritos em comum

Colagem com delegados caminhando diante de um centro de convenções, com a baía de Antália, minaretes, balões, tapetes e bandeiras ao fundo

A COP31 acontece de 9 a 20 de novembro de 2026, em Antália, na Turquia, e a pergunta que mais circula entre governos, empresas e organizações da sociedade civil é o que os grandes países emergentes levarão para a mesa. Brasil, China e os demais integrantes do BRICS chegam com agendas próprias, em parte coincidentes e em parte conflitantes, num momento em que comércio, financiamento e combustíveis fósseis disputam o centro das negociações.

O que está confirmado até agora

  • No Brasil, a Presidência da República confirmou em 30 de outubro que o presidente Lula participará da conferência, com chegada prevista para 10 de novembro e participação na cúpula de líderes, nos dias 11 e 12, e a companhia do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, segundo o U.S. News. O país terá um pavilhão próprio na Zona Azul, organizado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pela Presidência da COP30 e pela Apex Brasil.
  • A China expôs suas prioridades em 21 de outubro, em coletiva do vice-ministro do Meio Ambiente, Li Gao, conforme o Brazil Economy. As fontes consultadas não informam o nível da delegação chinesa em Antália.
  • A Rússia anunciou que abrirá um pavilhão na COP31, sob o conceito "Rússia: território de soluções climáticas", conforme o Ministério do Desenvolvimento Econômico. A composição da delegação não foi divulgada.
  • Índia e África do Sul já apresentaram suas posições em preparação à conferência, e o ministro indiano Bhupender Yadav liderou a delegação do país na reunião preparatória (pré-COP31), em Fiji.

Dos demais membros do BRICS, as fontes consultadas não mostram posição conjunta do bloco para a COP31 nem confirmações consolidadas de presença. As agendas são individuais, e a coordenação ocorre sobretudo em grupos como o BASIC, formado por Brasil, África do Sul, Índia e China.

A programação do Brasil

O Pavilhão Brasil funcionará de 9 a 19 de novembro, com dois auditórios, segundo a programação divulgada pelo MMA: o Auditório Belém, voltado à agenda climática nacional, e o Auditório Mutirão Global, ligado à Agenda Global de Ação Climática. A inauguração está marcada para 9 de novembro, às 17h45. A página lista as organizações proponentes de cada painel e não os palestrantes, e os horários podem mudar. Alguns destaques:

  • Comércio e geopolítica: "Comércio e clima na nova geopolítica mundial" (Apex Brasil, 10/11) e "Clima, comércio e resiliência" (16/11).
  • Combustíveis fósseis: caminhos para uma transição justa para além dos fósseis (PNUMA, LACLIMA e Greenpeace Brasil, 10/11), o roteiro da transição para longe dos combustíveis fósseis, apresentado pela Presidência da COP30 (11/11), e parcerias entre exportadores e importadores, com a OCDE (13/11).
  • Mercados de carbono: Artigo 6 e CORSIA, com a IETA (11/11), a implementação do mercado de carbono no Brasil, com o Ministério da Fazenda (13/11), e a harmonização da contabilidade de carbono (13/11).
  • Agenda nacional: lançamento do Sistema IndicaClima e do Plano Clima (12/11), desmatamento zero em 2030, com Ibama e MMA (12/11), e o Mapa do Caminho nacional (12/11).
  • Finanças: o "Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão" (14/11), finanças sustentáveis com o Banco do Brasil (10/11) e sessões sobre taxonomias, com o Banco Mundial e a Fazenda, e sobre gestão de riscos, com a Febraban (13/11).
  • Povos e territórios: posse de terra indígena e metas climáticas, com MPI, APIB e TNC (13/11), mulheres indígenas e defesa territorial (14/11) e justiça climática e racismo ambiental (14/11).
  • Setor produtivo: sessões de CNI, Febraban, CNT, CNA, CEBDS e outras entidades empresariais ao longo da semana.

O que China e Rússia levam

Segundo o Brazil Economy e o Climate Home News, a China quer usar a COP31 para questionar barreiras comerciais dos Estados Unidos e da União Europeia e defende a livre circulação de tecnologias verdes. A China é a maior fabricante de equipamentos solares, veículos elétricos e baterias, e argumenta que tarifas encarecem a transição. Em análise do Carbon Brief, especialistas apontam outras prioridades: reafirmar o multilateralismo, cobrar a entrega do financiamento, em especial para adaptação, e dar ênfase à implementação das metas já assumidas. Há ainda a expectativa de que o país apoie a eletrificação, mas resista a vinculá-la à eliminação dos combustíveis fósseis. Segundo o Brazil Economy, Brasil e China avançaram em setembro num memorando sobre mercado de carbono, que deve ser assinado durante a COP31.

O pavilhão russo terá uma temática diferente a cada dia, com Ártico e Rota do Mar do Norte, resiliência urbana, mercados de carbono, energia (incluindo renováveis, pequenos reatores nucleares e hidrogênio), indústria e captura de CO₂, segurança alimentar, ecossistemas e cooperação internacional, inclusive no âmbito do BRICS. O vice-ministro Vladimir Ilyichev defende que as regras climáticas internacionais reflitam as diferenças entre estruturas econômicas e matrizes energéticas. A Rússia e o Grupo Africano também propuseram uma trilha formal de negociação sobre comércio, segundo o Climate Home News.

O que Índia e África do Sul defendem

A Índia vincula maior ambição a financiamento, transferência de tecnologia e capacitação, pede peso igual para adaptação, mitigação e meios de implementação e defende o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, conforme o balanço da pré-COP31. Também levou o artigo 9.1 do Acordo de Paris, sobre financiamento dos países desenvolvidos, para a agenda provisória.

A África do Sul prioriza a adaptação: quer um parâmetro para triplicar o financiamento até 2035, a operacionalização da Meta Global de Adaptação e recursos adequados para perdas e danos, e apoia um Mecanismo de Transição Justa, segundo o Mail & Guardian. Em junho, em Bonn, o BASIC afirmou que medidas comerciais ligadas ao clima não podem virar discriminação arbitrária ou restrição disfarçada ao comércio, de acordo com o governo sul-africano.

Os principais pontos de tensão

  1. Tarifas e penalidades sobre tecnologias limpas e produtos intensivos em carbono, como as do mecanismo de ajuste de carbono na fronteira da União Europeia (CBAM), devem voltar ao centro. Em Belém, China, Índia e África do Sul levaram o tema à agenda, e a União Europeia defende que o diálogo não vire espaço para resolver disputas comerciais, segundo o Climate Home News.
  2. O Grupo Africano pediu a inclusão, na agenda, da meta de triplicar o financiamento à adaptação, do comércio e do Fundo Verde para o Clima. Os países mais pobres querem US$ 120 bilhões por ano até 2030, e nenhum outro grupo de países em desenvolvimento apoiou formalmente o pedido, segundo o Climate Home News. A conferência pode começar com disputa sobre a pauta.
  3. A Exame registra que o ministro turco Murat Kurum, que preside a cúpula e a Agenda de Ação, resiste a reafirmar a transição para longe dos fósseis, enquanto o australiano Chris Bowen, que conduz as negociações, defende abandoná-los. As ilhas do Pacífico exigem compromissos explícitos, tema do nosso texto sobre o financiamento climático na região.
  4. Em Bonn, China, Índia e Arábia Saudita questionaram as bases do limite de 1,5 °C, e uma coalizão defendeu decisões baseadas na melhor ciência disponível, segundo a Exame.
  5. É a primeira COP com comando duplo, entre Turquia e Austrália, e o desenho não define quem decide se as duas presidências divergirem.

As expectativas da sociedade civil

O Observatório do Clima propôs o Chamado de Antália para roteiros de transição dos combustíveis fósseis, tema que não consta da agenda oficial, e a Climate Action Network, rede internacional de organizações, pede a criação do Mecanismo de Belém-Antália para uma transição justa global, com participação de trabalhadores e comunidades, segundo o boletim ECO. A rede também cobra um caminho formal para o financiamento da adaptação, tributação de grandes fortunas e lucros fósseis, recursos para perdas e danos e atenção à cláusula de arbitragem entre investidores e Estados, que permite a empresas processar países por políticas climáticas. Organizações locais veem limites à participação da sociedade civil na Turquia, e a rede registra a detenção de ativistas na Rússia, caso citado também por povos indígenas.

No Pavilhão Brasil, a programação dá espaço a esses atores. O Fundo Indígena Vituke, do Ministério dos Povos Indígenas e do Funbio, tem sessão em 10 de novembro, e a APIB participa do painel sobre posse de terra indígena, em 13 de novembro. Em 14 de novembro, o Instituto Raoni discute a defesa territorial das mulheres indígenas, e o Geledés, as comunidades religiosas na agenda climática. A PerifaConnection trata de adaptação a partir das periferias (12/11), e a Campeã da Juventude da COP30 coordena o Mutirão das Juventudes (18/11). Segundo a Exame, a Presidência da COP30 propõe um multilateralismo "em duas velocidades": decisões por consenso definem regras, e coalizões menores executam.

As expectativas do mercado

Não há, nas fontes consultadas, pesquisas ou posicionamentos consolidados do setor privado. Os sinais públicos apontam para quatro frentes:

  • Comércio e tarifas: como a disputa afetará cadeias de energia solar, veículos elétricos, baterias e produtos exportados com pegada de carbono.
  • Mercados de carbono: regras do Artigo 6, interoperabilidade entre sistemas e o memorando entre Brasil e China.
  • Financiamento e taxonomias: instrumentos que reduzam o custo do capital para a transição, tema de várias sessões do pavilhão.
  • Agenda de Ação: segundo a Exame, a Confederação Nacional da Indústria criou a Sustainable Business COP, que reúne mais de 120 associações para orientar a participação empresarial brasileira.

O que acompanhar nas próximas semanas

  1. A definição da agenda provisória e a disputa sobre comércio e adaptação nos primeiros dias.
  2. A cúpula de líderes, em 11 e 12 de novembro, e o discurso de Brasil, China, Índia e África do Sul.
  3. A assinatura do memorando Brasil-China sobre mercado de carbono.
  4. O texto final sobre combustíveis fósseis e a eventual referência a roteiros nacionais.
  5. O que sai do Pavilhão Brasil: Plano Clima, Mapa do Caminho e metas de desmatamento.

Fale com a KICK

A KICK Group acompanha a agenda climática e ajuda empresas a medir o efeito das negociações no relato ESG, nas cadeias de fornecedores, no financiamento e na comunicação. Se a COP31 pode mudar algo no seu negócio, vale conversar.

Solicitar mais informações

Escreva para contato@kickgroup.com.br. Fontes: MMA, Brazil Economy, Carbon Brief, Climate Home News (comércio), Climate Home News (adaptação), Ministério do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Climate Action Network, Observatório do Clima, Exame, U.S. News, ANI, Mail & Guardian e governo da África do Sul. Este texto é informativo, as programações podem mudar e ele foi atualizado até 3 de novembro de 2026.

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