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Adaptação climática no Brasil: o que os briefs da FGVces e do iCS mostram sobre lacunas e oportunidades

Tablet sobre uma mesa de madeira exibindo a capa do material Panorama da Agenda de Adaptação à Mudança do Clima no Brasil: briefs temáticos

Enquanto grande parte do debate climático se concentra na redução de emissões, os impactos das mudanças do clima já são vividos nas cidades, nas lavouras, nos hospitais e nas cadeias de abastecimento brasileiras. É nesse ponto que um material divulgado em junho de 2025 pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), ganha relevância: o Panorama da Agenda de Adaptação à Mudança do Clima no Brasil, em formato de briefs temáticos.

O que é o material

O documento reúne cinco briefs que aprofundam os achados de uma pesquisa mais ampla sobre lacunas e oportunidades para a atuação da filantropia na agenda de adaptação. A pergunta que orienta o estudo é como a filantropia pode gerar o maior impacto positivo possível na adaptação do país no curto, no médio e no longo prazo. Segundo o próprio material, a pesquisa combinou a revisão de 47 referências científicas e técnicas com entrevistas a sete especialistas e informantes-chave, e considerou oito temas: financiamento, infraestrutura, energia, sistemas alimentares, indústria, saúde, perdas e danos e justiça climática. Os briefs publicados tratam de cinco deles:

  • financiamento para adaptação e resiliência;
  • infraestrutura resiliente;
  • justiça climática;
  • adaptação e resiliência na saúde;
  • adaptação e resiliência dos sistemas alimentares.

Para cada tema, o material descreve o contexto, as principais lacunas encontradas e as oportunidades de ação, com a indicação do que fazer e de como fazer.

Por que ele é importante

O estudo parte de uma constatação: a adaptação ainda recebe menos atenção e menos recursos do que a mitigação. Entre 2013 e 2022, desastres socioambientais atingiram 91,7% dos municípios brasileiros, segundo dados do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional citados no material, e eventos como as tempestades no Rio Grande do Sul em 2024 mostraram como chuvas extremas afetam, ao mesmo tempo, moradias, água, energia, alimentos e a economia.

Ao mapear onde os recursos e as capacidades faltam, o material oferece um roteiro que serve à filantropia, mas também a empresas, governos e organizações da sociedade civil que precisam entender os riscos físicos do clima e priorizar ações.

Principais achados por tema

Financiamento

Entre 2015 e 2020, o setor agrícola recebeu, em média, R$ 15,1 bilhões por ano em financiamento climático mapeado, o equivalente a 60% dos fluxos identificados, com forte peso do crédito rural. O estudo aponta que há pouca transparência e poucas diretrizes para a alocação de fundos, que instrumentos já existentes, como fundos de investimento ESG regulados pela CVM e títulos soberanos sustentáveis, são subutilizados, e que recursos internacionais demoram a chegar aos territórios. Também destaca a escassez de profissionais com formação em clima e sustentabilidade, sobretudo nas pequenas e médias empresas e nos municípios.

Infraestrutura resiliente

O material mostra que o financiamento de infraestrutura está concentrado em projetos de mitigação, com pouca análise de riscos climáticos, e que programas habitacionais e instrumentos de planejamento urbano raramente incorporam essa lente. Cita um déficit de cerca de 5,8 milhões de moradias, além de outros 24,8 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação de infraestrutura. Recomenda a criação de critérios técnicos que considerem o clima atual e o projetado em editais e normas e a inclusão da infraestrutura urbana na discussão da Taxonomia Sustentável Brasileira.

Justiça climática

Os impactos da crise climática são desiguais, e os grupos mais afetados, como comunidades periféricas, indígenas, quilombolas e pequenos agricultores, estão sub-representados nos espaços onde as políticas são decididas. O brief aponta o acesso desigual ao financiamento, a fragmentação entre ciência, políticas públicas e saberes tradicionais e a necessidade de mecanismos de participação social. Uma das oportunidades é a criação de linhas de financiamento não reembolsável para pré-projetos de adaptação em territórios prioritários, que permitam a municípios e organizações locais acessar recursos já disponíveis em fases posteriores.

Saúde

Embora a saúde seja prioridade em 59% das Contribuições Nacionalmente Determinadas que tratam de adaptação, apenas 0,5% do financiamento climático multilateral vai para projetos da área, segundo os dados citados. O estudo também registra o avanço de doenças transmitidas por vetores, como dengue e malária, e lacunas de monitoramento, de orçamento e de acesso das organizações de saúde ao financiamento climático. A NDC brasileira divulgada em novembro de 2024 passou a incluir a saúde entre os objetivos nacionais de adaptação.

Sistemas alimentares

O sistema alimentar recebe cerca de 3% dos recursos de financiamento climático, de acordo com a fonte citada no material. As lacunas incluem a baixa adoção de práticas agroecológicas, a falta de informações climáticas para pequenos produtores, a vulnerabilidade das centrais de abastecimento e a inadequação dos seguros rurais à realidade da agricultura familiar. Projeções da plataforma AdaptaBrasil indicam tendência de queda na produção de grãos, ovos, leite e carne já no curto prazo.

O que o estudo propõe

As recomendações são organizadas em categorias de ação: advocacy, produção e disseminação de conhecimento, políticas, metodologias e ferramentas, capacidades gerenciais e técnicas e fortalecimento do sistema de atores. Em vários temas, aparecem propostas como guias acessíveis sobre fontes de financiamento, cursos e mentorias para a elaboração de projetos financiáveis, bancos de dados abertos, coalizões territoriais com recursos públicos e privados e a participação das comunidades na definição das soluções.

O que isso significa para empresas e organizações

Embora o estudo se dirija à filantropia, os achados dialogam diretamente com a agenda ESG e com a gestão de riscos das empresas:

  • riscos físicos do clima, como enchentes, secas e ondas de calor, afetam operações, ativos, fornecedores e colaboradores, e devem constar na análise de riscos e no relato, inclusive no padrão IFRS S2;
  • a infraestrutura e a localização dos ativos precisam considerar o clima projetado, e não apenas o histórico;
  • a cadeia de valor, principalmente em alimentos e agropecuária, depende de pequenos produtores com menor capacidade de adaptação;
  • projetos de adaptação com participação das comunidades tendem a ser mais robustos e a reduzir conflitos;
  • o setor privado é chamado a atuar em coalizões territoriais e a mobilizar recursos complementares aos do poder público;
  • quem organiza dados, indicadores e projetos tem mais condições de acessar financiamento.

Como acessar

O material completo está disponível, em PDF, no site do Instituto Clima e Sociedade. Ele foi elaborado pela FGVces, com financiamento e parceria técnica do iCS, e traz a ficha técnica e a bibliografia de cada brief.

Perguntas para a sua organização

  1. Quais riscos climáticos físicos já afetaram ou podem afetar a nossa operação e a nossa cadeia de valor?
  2. A análise de riscos considera o clima projetado para os próximos anos?
  3. Conhecemos as comunidades e os territórios do entorno e a sua vulnerabilidade?
  4. Temos projetos e dados organizados para acessar financiamento ou firmar parcerias de adaptação?

Fale com a KICK

A KICK Group apoia empresas e organizações na análise de riscos, na materialidade, no mapeamento de stakeholders, na estruturação de indicadores e no relato ESG, inclusive por meio da plataforma B.KICK. Entre em contato para conversar sobre como a agenda de adaptação se aplica ao seu negócio.

Solicitar mais informações

Escreva para contato@kickgroup.com.br. Fonte: Panorama da Agenda de Adaptação à Mudança do Clima no Brasil: briefs temáticos, FGVces e Instituto Clima e Sociedade, junho de 2025. Os números citados refletem as fontes indicadas no material original.

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